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Por Trás da Aposta

Atualizado: 24 de abr.



Uma reflexão sobre o que os vícios tentam nos dizer

Por Cloves Caroba, Analista Junguiano


O fenômeno que está em todos os lugares

Basta ligar a televisão num jogo de futebol para perceber: as apostas estão em todos os lugares. Nos intervalos, nos uniformes, nas conversas. O que antes era coisa de cassino virou rotina de celular. E junto com isso, começaram a aparecer as histórias como o colega de trabalho que está sempre no aplicativo, o vizinho que anda estranho, o parente que ninguém sabe mais como ajudar.


Os números confirmam o que sentimos no dia a dia. Em 2024, os brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões às apostas online.¹ Mais de 32 milhões de pessoas já apostaram em plataformas digitais, e quase 11 milhões fazem isso de forma que coloca em risco sua saúde e suas finanças.² A maioria não está nas classes altas: 40% dos apostadores pertencem às classes D e E, e outros 45% à classe C.³ É um fenômeno que atinge, sobretudo, quem já está vulnerável.

Diante dessas histórias e desses números, a reação mais comum é uma mistura de espanto e julgamento: como alguém se deixa levar assim? Como não percebe que vai perder?


Essa pergunta parece simples. Mas perguntas que já carregam um julgamento costumam fechar portas em vez de abri-las.


A lógica da alma

Na minha experiência como analista, aprendi que os comportamentos que parecem mais irracionais costumam ter uma lógica própria. Não uma lógica da razão, mas uma lógica da alma. Algo que a pessoa não consegue explicar, às vezes nem percebe, mas que a move com uma força enorme.


Jung, fundador da psicologia analítica, dizia que todo vício é uma busca espiritual que deu errado. Parece uma frase estranha. O que há de espiritual em apostar dinheiro?

Mas pense assim: quando alguém aposta, o que ela está sentindo? O coração acelera. O tempo para. Por alguns segundos, existe a possibilidade de que tudo mude. De que um milagre aconteça. De que a vida, finalmente, dê uma virada.


Esse sentimento de que algo maior pode acontecer, é no fundo, uma busca por sentido, por transformação e por esperança. São necessidades humanas legítimas. O problema não é a busca, mas o caminho escolhido para satisfazê-la.


A miragem e o atalho

Vou usar uma imagem que talvez ajude.

Imagine uma pessoa com sede atravessando um deserto. Ela precisa de água, algo real e urgente, não é? Aí ela encontra uma miragem… parece um oásis. Ela corre até lá, mas não tem nada. Mesmo assim, a sede continua. Então ela procura outra miragem. E outra. Cada vez mais exausta, cada vez mais longe de encontrar água de verdade.


O vício funciona assim. A necessidade é real. A sede é real. Mas o lugar onde a pessoa está tentando matar essa sede não tem o que ela precisa. E quanto mais ela tenta, mais perdida fica.

Tenho outra imagem que uso com frequência no consultório. Imagine que você caminha 1 km todos os dias para ir até uma padaria. Um dia, você descobre um atalho de apenas 300 metros. A partir desse momento, você nunca mais usa o caminho longo. É assim que a mente funciona: ela sempre busca o caminho de menor resistência.


O vício é esse atalho. Ele entrega um alívio imediato, uma espécie de anestésico instantâneo que o caminho da vida real demora meses para construir. O problema não é o atalho em si. O problema é que esse atalho de 300 metros leva para um precipício, e não para a padaria.


O que significa olhar para dentro

As pessoas fazem de tudo por não conseguirem olhar para dentro. Não é fuga por medo ou covardia. É falta de ferramentas. É não saber como suportar o peso da própria totalidade.

E aqui preciso explicar o que entendo por "totalidade".


Quando falamos de "alma" no vocabulário popular, parece algo separado do corpo. Uma coisa mística e etérea. Mas não é disso que estou falando. A alma, no sentido que uso, é você inteiro: seu corpo, suas memórias, seus traumas, suas células e suas esperanças. Consciente e inconsciente juntos. Tudo o que você é e tudo o que o afeta.


Aristóteles já dizia algo parecido: não somos um corpo que "tem" uma alma e nem uma alma "presa" a um corpo. Se somos alguma coisa, somos essa unidade. Essa inteireza.

Dizer que o vício é uma "busca da alma" significa apenas que o seu sistema inteiro, corpo e mente, está gritando por uma conexão que não encontra na rotina do dia a dia.


Em todos os mundos, menos no presente

Existe um filme recente que ilustra bem esse estado: "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo". A protagonista vive tantas realidades simultâneas que se perde de si mesma. É exatamente assim que funciona a mente de quem está no vício. A pessoa aposta ou usa o celular compulsivamente, ou bebe, ou trabalha sem parar… porque, naquele momento, ela habita uma realidade paralela onde é bem-sucedida, amada ou está em paz.


Ela está "em todos os mundos", menos no aqui e agora. Menos onde o corpo dói e as contas precisam ser pagas.


A cura não está em fugir para outra realidade. Está em trazer toda essa intensidade para o presente.


A sede por trás do comportamento

Então, em vez de perguntar por que alguém corre atrás de miragens, me parece mais interessante perguntar: que sede é essa? O que ela está tentando encontrar? E onde estaria, de fato, o que ela precisa?


Quando a gente olha por esse ângulo, o apostador deixa de ser apenas "irresponsável" ou "ganancioso" e passa a ser alguém que está tentando resolver algo… só que de maneira inadequada.


Alguns estão tentando sentir que a vida ainda pode mudar. Outros estão tentando fugir de uma realidade que parece pesada demais. Outros estão, ainda sem saber, pedindo ajuda e se destruindo para que alguém perceba o tamanho da dor.


Os dados de saúde confirmam isso. Uma pesquisa recente mostrou que 51% dos brasileiros que apostam sentem aumento de sintomas ansiosos. E 42% usam o jogo como fuga das dificuldades cotidianas - mas, em vez de aliviar o estresse, acabam aprofundando-o com sensações de impotência e isolamento.⁴ Outro levantamento revelou que 57% dos inadimplentes que apostam não tinham dívidas antes de começar a jogar. Eram pessoas com equilíbrio financeiro que foram levadas à ruína.⁵


Um estudo publicado pela revista Lancet em 2025 trouxe um dado ainda mais grave: o suicídio é a principal causa de morte entre pessoas com transtornos ligados ao jogo.⁶ Não estamos falando de um problema pequeno. Estamos falando de vidas.


O que realmente ajuda

Chegamos em um ponto onde as consequências são reais: famílias quebradas, dívidas e sofrimento. Mas entender o que está por trás é o primeiro passo para ajudar de verdade.

E aqui faço uma ressalva importante. Existem abordagens que, na tentativa de ajudar, acabam colocando todo o peso da culpa sobre quem já está caído. Métodos que exigem que a pessoa "repare os danos" antes mesmo de conseguir se levantar e que tratam o viciado como culpado e as pessoas ao redor como “santos”.

Esse caminho não funciona porque a culpa não cura. A culpa paralisa. E quem está preso num ciclo de vício já carrega culpa suficiente.

O que cura é a compreensão. É ajudar a pessoa a olhar para dentro e perguntar: o que está faltando? O que essa busca toda está tentando encontrar? Não com julgamento, mas com curiosidade genuína.

A intensidade que leva alguém a apostar tudo é a mesma que pode levá-lo a construir algo de verdade. Essa energia não precisa ser eliminada, e sim ser redirecionada.


O espelho que preferimos evitar

Existe outro lado dessa conversa que me parece importante compartilhar com você.

É fácil olhar para o apostador e pensar: "isso nunca aconteceria comigo". E talvez não aconteça… mas não dessa forma. Será que estamos tão distantes assim?

Pense nas pequenas fugas do dia a dia. A pessoa que não consegue largar o celular e fica rolando nas redes sociais por horas. A que trabalha sem parar, mesmo quando o corpo pede descanso. A que compra coisas que não precisa para sentir um alívio momentâneo. A que só consegue relaxar com algumas doses de álcool.

São formas diferentes de lidar com a mesma coisa: um vazio, uma inquietação, algo que não sabemos nomear mas que pede para ser preenchido.

Não digo isso para apontar dedos. Digo porque me parece importante reconhecer que todos nós, de um jeito ou de outro, buscamos formas de aliviar o peso de existir. A diferença está no grau, nas consequências e na visibilidade. Mas a raiz é a mesma.

Jung falava sobre a Sombra que são aquelas partes de nós que preferimos não ver. Tendemos a enxergar nos outros o que não queremos reconhecer em nós mesmos. O apostador viciado talvez carregue, de forma visível, algo que muitos carregam de forma escondida.

Quando olhamos para alguém em sofrimento e conseguimos enxergar um pouco de nós ali, algo muda. A superioridade vira compaixão. O julgamento vira curiosidade. E a curiosidade é o começo de qualquer transformação, tanto para quem está perdido quanto para quem observa.


O atalho que leva para casa

Entre o caos do vício e a meta distante da individuação, existe um caminho mais curto: a percepção. A individuação é um conceito elevado de Jung sobre tornar-se quem você realmente é. Mas para quem está no desespero, isso parece longe demais. A percepção é o primeiro passo.


Se conseguirmos enxergar que o vício é um atalho que você criou para não morrer de sede no deserto, paramos de nos culpar. O passo seguinte não é buscar um ideal místico e distante, mas entender que você já é essa totalidade de corpo, consciência e inconsciente, tudo junto.

Costumo dizer aos meus analisandos: se você ainda faz esse caminho, é porque ninguém te apresentou um caminho mais eficiente. No dia em que isso acontecer, você larga o antigo sem esforço. Não por disciplina, não por força de vontade. Simplesmente porque encontrou algo melhor.


Existe uma informação que você precisa ouvir. Quando ouvir, algo muda automaticamente. O trabalho não é forçar a mudança. É descobrir qual é essa informação. Qual é o caminho que faz sentido para você.


Por isso, não desista de buscar ajuda. Não desista de tentar entender o que o vício está querendo dizer. O dia que você encontrar, não vai precisar se esforçar tanto para largar. O vício simplesmente perde a função.


A cura não está em fugir para outra realidade. Está em trazer toda essa intensidade para o presente. Quando o caminho para dentro de si se torna mais eficiente e acolhedor do que o caminho para a aposta, o vício perde a utilidade. Não porque você se tornou "santo", mas porque finalmente encontrou o atalho que leva para casa.


Esse é o trabalho que ofereço como analista junguiano: ajudar você a encontrar esse caminho.



Um convite

Quem está no ciclo do vício não precisa de julgamento. Precisa de compreensão, de alguém que ajude a olhar para dentro e perguntar: o que está faltando? O que essa busca toda está tentando encontrar?


E se você, lendo isso, se identificou com algo mesmo que não seja com apostas, mas com outras formas de fuga… saiba que reconhecer já é um passo enorme. A maioria das pessoas passa a vida inteira sem olhar para essas coisas.


O caminho de volta para si mesmo às vezes começa assim: com uma pergunta incômoda, feita com gentileza, num momento de reflexão.

Escrito por Cloves Caroba, Analista Junguiano "Entender a causa muda tudo" | Atendimentos Online




Fontes

¹ Banco Central do Brasil, 2024.

² Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), Unifesp, 2025.

³ Relatório da CPI das Apostas Esportivas, Senado Federal, 2025.

⁴ Pesquisa Instituto Locomotiva, 2024.

⁵ Pesquisa Serasa/Opinion Box, 2024.

⁶ Estudo publicado na revista The Lancet, março de 2025.


 
 
 

2 comentários


monicagobatto
15 de mai.

Excelente abordagem com linguagem precisa é análise impecável..

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nairmattos58
04 de mai.

Artigo excelente! A abordagem, que alia a psicanálise a uma visão humana e amorosa, é sensacional. O tema é complexo, mas a linguagem simples e acessível torna a leitura fluida e muito enriquecedora. Parabéns pela análise elaborada, @terapeutaclovescaroba.

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Cloves Caroba | Analista Junguiano | Atendimentos Online Individual e Casais

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