A Força do Feminino

Por que mulheres fortes e resolutivas se sentem tão perdidas dentro de casa
Por Cloves Caroba, Analista Junguiano
A maioria das pessoas que acompanho no consultório são mulheres. E depois de milhares de conversas, comecei a identificar um padrão que acaba se repetindo.
Quase sempre, quando pergunto sobre o começo da vida, vejo que muitas delas tiveram pouco colo na infância. Eu chamo de a Teoria do Colo Perdido. Vou te explicar: a mulher, ainda quando criança, ainda pequena, assume uma postura resolutiva, produtiva e ativa. E ela faz isso, entre outras razões, para não competir com a mãe, para não rivalizar com irmãos. Fazendo com que ela ocupe um lugar não disputado, sem concorrência.
Te convido a se aprofundar mais neste tema. Vamos?
A origem: um pai ausente, ou pior, presente-ausente
Junto com essa história, quase sempre aparece a figura de um pai ausente. Ou, muitas vezes, algo ainda mais difícil de nomear: um pai presente-ausente. Este pai está lá no convivio, mas quem comanda o sistema da casa é a mãe. A mãe é a autoridade, a resolutiva, a produtiva. E é aqui onde essa menina aprende a copiar a mãe, não rivalizando com ela.
Esse mês, em que se fala tanto sobre pais, acho importante nomear isso: a ausência paterna, mesmo quando o pai está fisicamente em casa, deixa uma marca tão profunda quanto a ausência total. E é justamente essa marca que, mais tarde, molda a forma como essa mulher vai ocupar o mundo. Interessante, não?
Um exemplo que se repete no consultório
Atendo, com frequência, mulheres que chegam exaustas, que são competentes, admiradas pelo mercado de trabalho, mas que se sentem perdidas dentro de casa. Uma delas, certa vez, resumiu isso numa frase que carrego até hoje: "Eu sei liderar um time de trinta pessoas, mas não sei pedir pro meu marido me ajudar sem isso parecer uma fraqueza minha."
Essa frase é sobre uma força que foi treinada a vida inteira para produzir, mas nunca treinada para pedir, para receber, para descansar dentro de uma relação. Quando essa mulher tenta impor alguma regra em casa, ela usa a única ferramenta que aprendeu a usar: a força resolutiva, o comando direto. E essa ferramenta, que funciona tão bem numa reunião de trabalho, acaba chocando com o parceiro em vez de aproximar.
Quando a força resolutiva vira instrumento do mercado
Essa atitude resolutiva, emprestando aqui um conceito de Jung, acaba sendo capturada pelo mundo corporativo. Vivemos num sistema que recompensa exatamente esse tipo de força, e essas mulheres, que já carregam essa predisposição desde a infância, muitas vezes por trás de um pai com algum desafio, seguem sendo convocadas a colocar essa força em ação. Sustentam a casa, sustentam a família e acabam sustentando sistemas inteiros.
O problema aparece depois, quando essa mesma força que funciona tão bem no trabalho entra em choque na relação com o parceiro.
O Preço de Ser a Chefe Financeira
Aqui mora um ponto que considero o cerne da questão: essas mulheres sabem liderar. Comandam equipes, projetos, outras mulheres que vivem a mesma dinâmica que elas... No ambiente profissional, essa força funciona.
O problema é que essa mesma liderança não se sustenta dentro de casa, no vínculo com o marido e/ou com os filhos. Ali, a força resolutiva que funciona tão bem numa reunião de trabalho não se converte em autoridade, e sim em atrito. E a única forma que encontram de ocupar algum poder ali dentro é através do dinheiro: assumem o papel de chefe financeira do lar, porque é a única língua de comando que aprenderam a falar. Esse lugar tem um preço que muitas vezes, pagam com a própria saúde.
A rivalidade que nasce de uma força que foi emprestada
Existe ainda outro efeito colateral desse deslocamento, e ele aparece entre as próprias mulheres. Quando a força que se usa é uma força emprestada, uma força masculina, significa que essa mulher não aprendeu a usar sua força feminina em sua totalidade. Sabemos que existem mulheres de várias personalidades, porém falo aqui de resultados baseados nas mulheres que atendi.
Durante o desenvolvimento dessa mulher, ela teve que competir com a mãe ou com uma irmã, mas sempre dando mais do que recebendo para evitar conflitos. Depois, ela leva essa mesma lógica para o ambiente de trabalho, para as amizades e para os grupos que deveriam ser de apoio.
Isso não é uma característica da mulher; é uma consequência de estar usando uma força que não é a sua original. Quando essa mulher reencontra a sua força genuína, a rivalidade tende a diminuir, porque ela deixa de precisar competir para se sentir validada.
Isso não é sobre submissão
Quero ser claro nesse ponto, porque sei que ele pode soar polêmico. Não estou falando de submissão, nem de delicadeza como obrigação. Estou falando de ousadia. A verdadeira força feminina não é frágil, é ousada. Meu trabalho com essas mulheres é justamente esse: ajudá-las a acessar essa ousadia, sem medo de serem femininas.
E não estou dizendo, de forma alguma, que as conquistas femininas não existam ou não sejam legítimas. Elas sempre existiram, em todos os tempos, em todas as gerações de mulheres que vieram antes dessas, e sempre se construíram aos poucos, na convivência, na demonstração diária de quem essa mulher é.
O que vejo mudar, hoje, é a forma como esse espaço é pedido. Muitas vezes chega como uma cobrança direta, quase uma exigência: "você tem que me dar isso." E cobrança direta tende a gerar defesa do outro lado, não abertura. Quem se sente cobrado raramente cede por livre e espontânea vontade, ele recua, ou reage. Já o espaço que se conquista aos poucos, na convivência, dia após dia, costuma durar muito mais do que aquele que se exige de uma vez.
O acordo invisível entre yin e yang
Existe uma polaridade natural entre o masculino e o feminino. O homem é yang por natureza, com um pouco de yin. A mulher é yin por natureza, com um pouco de yang. Quando essa mulher, pela história que contei aqui, passa a ocupar majoritariamente o yang, ela deixa de conseguir acessar o próprio yin. E é justamente o yin da mulher que resgata o yang do homem. Sem esse yin, ele não consegue exercer o seu yang.
Não estou colocando uma responsabilidade a mais nas costas da mulher. Estou explicando um mecanismo: o que estimula a força natural do homem é a força natural da mulher. Uma mulher em polaridade yang, mesmo sem querer, não motiva esse homem. E ele, sem esse estímulo, escorrega para a sua própria polaridade negativa, que é ficar excessivamente no yin, sem conseguir funcionar bem no mundo.
É um padrão que vejo se repetir: quanto mais essa mulher trabalha, mais yang ela fica, menos ela estimula esse masculino, e menos esse masculino produz. Ele pode, racionalmente, tentar ser generoso, grato por tudo que ela faz. Muitos nem chegam a se separar, porque a consideração que sentem por ela é grande. Mas continuam afundando aos poucos, sem conseguir ocupar a polaridade que, nele, precisa ser ocupada.
Numa linguagem junguiana, poderíamos dizer que a mulher é o eros, a parte que estimula, que aproxima, e o homem é o logos, a parte lógica, estruturante. Quando o eros dela se apaga, o logos dele perde combustível.
A polaridade que precisa se equilibrar
Estamos falando de um acordo entre duas partes. E aqui reconheço, com a mesma clareza, a parte que cabe aos homens: muitos se afastaram da própria responsabilidade, do próprio lugar de cuidado. Quando essa cobrança aparece, muitos não comparecem. Essa ausência masculina, de tempos em tempos, também tem raízes históricas, em guerras, em modelos que já não sustentam mais ninguém.
O meu trabalho não é convencer essa mulher a abrir mão de nada. É ajudá-la a integrar as duas forças: a que já sabe fazer, e a que ainda precisa aprender a ser cuidada, a se proteger, a ocupar o feminino sem culpa. E, do outro lado, quando o processo permite, trabalhar com o homem para que ele resgate o seu yang.
Não se trata de construir um novo modelo de machismo, nem um novo modelo que apenas inverte o problema. Trata-se de resgatar uma essência que sempre existiu, mas que foi silenciada. E esse resgate, para durar, precisa ser lento, gradual, sem pressa de provar nada, e feito em acordo. Cada um voltando para o seu próprio lugar.
Um convite
Se você se reconheceu neste texto, sente que aprendeu a fazer de tudo, mas ainda não aprendeu a ser cuidada, a ocupar o seu lugar sem precisar carregar o peso sozinha, talvez seja hora de olhar para essa história de perto.
Na análise individual, vamos investigar juntos onde essa força começou a se deslocar, e o que ela está protegendo até hoje.
Vamos conversar.
Cloves Caroba, Analista Junguiano "Entender a causa muda tudo" | Atendimentos Online





Belo artigo, parece que foi escrito para o meu ser, eu funciono mesmo assim.
É impressionante como tantas mulheres se enquadram nesta situação.
Obrigada Cloves, por seres o meu terapeuta que tanto me ajudas…
É um sistema delicado que eu, como mulher, busco enxergar. Parece que o tempo atua como um manto de invisibilidade sobre essa condição de ser mais yin e continuar dando conta de tudo...
Ótimo artigo para pensar e reler sempre!
👍