top of page
Buscar

Você Tem Culpa ou Nunca Teve Escolha?

há 3 dias
4 min de leitura

O sentimento que nos convence de uma dívida que não existe

Por Cloves Caroba, Analista Junguiano



Você sabia que, muitas vezes, a culpa que esconde uma incapacidade de compreender? De, realmente, entender?

O sentimento de culpa costuma aparecer como se fosse uma prova de que fizemos algo errado. Mas, na prática clínica, consegui ver por outro angulo: a culpa quase sempre esconde uma incapacidade de compreender a própria situação.

Na psicologia analítica, trabalhamos com a seguinte premissa: ninguém tem culpa de nada. Nós nascemos dentro de um sistema já formado, com crenças que não escolhemos, dentro de uma família que já carregava a sua própria história antes de nós chegarmos. A nossa função não é acatar a esse sistema, e sim nos tornarmos conscientes dele.


Uma dívida inexistente

Quando criança, somos julgados por um sistema que já estava pronto trazendo os valores dos pais e muitas vezes reforçados por narrativas religiosas que ajudam a ficarmos mais presos à circunstância. E, sem saber se defender, ficamos com o sentimento de culpa. Passamos a viver como se estivéssemos pagando uma dívida.

O problema é que essa dívida não existe. E uma díviida que não existe, não pode ser paga… entende? Porque não há um valor de fato registrado. Só existe a sensação de que devemos… de que somos devedores. É como pegar uma rodovia no sentido contrário ao lugar que você quer chegar: quanto mais você anda, mais longe fica. E detalhe: quanto mais você paga essa culpa, mais você sente que deve.


A subida vertical com vento lateral

Uma criança nasce, e a partir daí vive duas direções ao mesmo tempo. Vive a própria história, o próprio potencial. E, simultaneamente, se sacrifica por algo maior que ela: a família, o grupo ao qual pertence.

Gosto de pensar nisso como um avião decolando. Ele deveria subir na vertical, mas quando existe um vento lateral forte, ele acaba subindo torto, puxando pra o lado. É assim que enxergo esse processo: nascemos com uma direção de crescimento, mas a força da família, que seria o vento lateral, acaba nos puxando e sacrificando parte do nosso potencial em nome de um crescimento que não é só nosso, é do grupo inteiro.

Essa não costuma ser uma escolha consciente do indivíduo. É a vida que se organiza assim, naturalmente. Só um processo profundo de análise revela isso, porque a vida que vivemos, no dia a dia, quase nunca é a mesma vida que registramos dentro de nós.


Toda dor gera consciência. Mas só a análise transforma essa consciência em algo seu

Existem sacrifícios que atravessam famílias inteiras: uma criança doente, a perda de alguém que partiu cedo demais... Esses acontecimentos, por mais dolorosos que sejam, também geram consciência para quem sofre, e principalmente para quem observa.

Só que existe uma diferença enorme entre sofrer um sacrifício sem entendê-lo, e se tornar consciente dele. E isso é: enquanto eu não sei por que eu faço o que faço, eu resisto. E é dessa resistência que nasce o paradoxo mais comum que vejo no consultório: a divisão entre o que a vida pede de você, e o que os seus pais esperam de você.

Isso não significa que os pais não queiram o melhor para os filhos. Significa que o conhecimento deles foi construído num outro tempo, com outras demandas. É como tentar responder uma prova nova estudando pelo gabarito de uma prova antiga. Quanto mais fundo vamos nessa herança, maior a distância entre o que foi ensinado e o que a vida está de fato pedindo agora.

O caminho da consciência é sempre por aí: entender de onde vêm essas duas forças puxando em direções opostas, e encontrar, aos poucos, o próprio equilíbrio entre elas.


Viver a vida como um texto que pode ser reescrito

Existe algo libertador nesse entendimento. A vida que vivemos se parece muito com um texto escrito. E, como todo texto, ele pode ser editado. Não o conteúdo inteiro, mas a fonte, a pontuação, o ritmo das frases. Às vezes, mudar uma vírgula de lugar já muda o sentido inteiro do que está escrito.

Na terapia, é isso que fazemos: aprendemos a colocar as vírgulas de um outro jeito, para dar um novo sentido ao próprio texto. O livre-arbítrio, a ideia de fazer do seu próprio jeito, só existe de verdade quando passa por esse entendimento: o que eu estou fazendo, e por que eu estou fazendo.

Existe uma sabedoria antiga que fala sobre aceitar o que não se pode mudar, ter coragem para mudar o que se pode, e discernimento para diferenciar uma coisa da outra. É exatamente nesse discernimento que mora a saída da culpa. Porque quando eu me conscientizo, quando debato o que carrego e me posiciono diante disso, eu deixo de pagar uma dívida que nunca existiu e ganho, no lugar dela, a autonomia.

Um convite

Se você carrega um sentimento de culpa antigo, que parece nunca se resolver por completo, vale a pergunta: essa culpa é sua mesmo, ou é uma dívida que você aprendeu a pagar sem nunca ter escolhido dever?

Na análise individual, vamos investigar juntos a origem desse sacrifício, e o que ele revela sobre a direção que a sua vida está tentando tomar.

Vamos conversar.

Cloves Caroba, Analista Junguiano "Entender a causa muda tudo" | Atendimentos Online


 
 
 

Comentários


  • Whatsapp
  • Instagram

Telefone: (11) 94344-6825

Cloves Caroba | Analista Junguiano | Atendimentos Online Individual e Casais

©2026 por Cloves Caroba.

bottom of page