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Por Que Não Mudamos?

O paradoxo entre o desejo de mudar e o medo de deixar de ser quem somos

Por Cloves Caroba, Analista Junguiano


A pergunta que ouço todos os dias

"Por que eu não mudo?" É uma das perguntas mais recorrentes do meu consultório. Ela vem dos próprios analisandos, que cobram de si mesmos um resultado que ainda não chegou. E vem também de fora, de quem observa e conclui, com uma certa impaciência, que a pessoa simplesmente não quer mudar.


Depois de mais de 12 mil horas de escuta, discordo dessa conclusão. Quem procura terapia quer mudar. Quem estuda, quem busca ajuda, quem entra num consultório pela primeira vez, quer mudar. O desejo está presente, quase sempre, com uma intensidade verdadeira.


O que acontece é que a mudança pede algo que a maioria das pessoas não está preparada para entregar.


O paradoxo: eu quero mudar, mas não quero mudar

Para mudar, é preciso primeiro descobrir quem nós não somos. A mudança não está no que você já é e sim no que vai se tornar. E é exatamente esse “se tornar” que pode assustar a alguns.


Existe um paradoxo curioso em quase todo processo analítico: uma pessoa deseja um resultado diferente, mas quer alcançá-lo permanecendo exatamente como está. Só que o desejo que ela sente hoje só existe porque ela é quem é hoje. Se ela muda, o próprio desejo muda junto. E isso, por mais estranho que pareça, dá medo.


Poderíamos resumir assim: eu quero a mudança, mas não quero mudar.


A persona que sustenta o resultado de hoje

Quem somos, no sentido mais superficial, é a persona que sustenta o resultado que temos agora. E essa persona, na maioria das vezes, foi construída para cumprir um modelo idealizado… um modelo idealizado principalmente pelos pais.


Carregamos, mesmo adultos, uma imagem congelada do que os nossos pais esperavam de nós. Muitas vezes essa expectativa nem existe mais do lado deles. Mas dentro de nós, ela continua ativa, comandando decisões, sustentando comportamentos, definindo os limites do que ousamos tentar.


A mudança verdadeira exige abrir mão dessa imagem. E é justamente isso que a pessoa resiste a fazer, porque tudo o que ela quer, aparentemente, é para cumprir essa mesma imagem. Esse é o nó do paradoxo.


Só que nós não viemos para satisfazer o ideal dos nossos pais. Viemos para expandir esse ideal, para ir além dele, entende? E quando isso acontece, quando uma pessoa ultrapassa o limite que imaginava ser o esperado, o que surge é uma alegria, livre de culpa. Porque ela descobre que, mesmo rompendo com o modelo antigo, ainda assim foi respeitada, ainda assim colheu bons resultados. Às vezes nem precisou do apoio que tanto temia perder. Só precisava descobrir isso.


Por que a terapia não precisa doer

O processo de mudança passa por confiança e apoio. É aí que entra a terapia: apoiar uma pessoa a romper com essa persona, quase sempre construída para ser boazinha, para agradar, para caber… e que, no fundo, já está causando dor.


Do jeito como eu conduzo esse processo, essa ruptura não precisa doer. Quando existe compreensão real do que está em jogo, a pessoa simplesmente segue. Ela para de olhar para o desejo dos pais e passa a olhar para o próprio propósito.


Mudar não tem a ver com disciplina. Há disciplina na terapia? Sim, mas a mudança em si nasce de outro lugar: da alegria de cumprir uma missão que é sua. Quando isso acontece, o peso desaparece.


A matemática da mudança

Costumo orientar as pessoas a experimentarem, aos poucos, um certo desconforto psíquico… imaginar-se diante de situações que, na cabeça delas, causariam um transtorno enorme. E quando finalmente enfrentam essas situações, quase sempre descobrem que a realidade não era como imaginavam. Às vezes é pior. Mas na grande maioria das vezes, não é nada daquilo que temiam.


Gosto de usar uma frase de Mark Twain: "Tive muitos problemas durante a vida, mas a maioria deles nunca aconteceu."


Existe um chamado interno que todos nós ouvimos, todos os dias. Ele só vem um tom abaixo das crenças que nos mantêm no lugar em que estamos. A partir do momento em que a pessoa começa a escutar essa voz baixinha, lá do fundo, e confia nela mesmo com medo, ela colhe um resultado. E é esse resultado que vai sustentar a próxima mudança, e a próxima, e a próxima.


Quando nos permitimos sonhar, quando nos entregamos a essa vontade genuína que já existe dentro de nós, a mudança deixa de ser um esforço de vontade e passa a acontecer de forma fluida, sustentável e duradoura.

É para isso que eu trabalho.


Um convite

Se você se reconheceu neste texto, se sente esse desejo de mudar convivendo, lado a lado, com a resistência a deixar de ser quem você é hoje… talvez seja hora de investigar isso de perto.


Na análise individual, investigamos juntos qual persona você está sustentando, e o que ela está protegendo. Sem fórmulas prontas, sem pressa. Só escuta e clareza, até você conseguir ouvir essa voz baixinha, lá do fundo, que já sabe quem você veio ser.

Vamos conversar.



Cloves Caroba, Analista Junguiano "Entender a causa muda tudo" | Atendimentos Online


 
 
 

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